Mas ele se sente só
Quando a noite cai
E quando vem o vazio
Ele nem sabe pra onde vai
Ele se sente só - Megh stock
Ela estava confusa. Coisa rara entre as organizações virginianas. As lágrimas nos olhos não eram de tristeza, eram de angústia. Sabe quando a mãe nos pede pra comprar pão e chegando à padaria você não sabe qual o tipo de pão levar? Pois é. Ela estava com medo de escolher o pão errado – porque os dois eram bons pães. E se a mãe brigasse com ela? E se as pessoas não gostassem da nova massa, do novo recheio?
Tinha acordado também com o coração encharcado. “Não me espremam que eu transbordo”. E tomou a providência dela mesma espreitar-se, espremer-se em dúvidas, angústias, escolhas, entre pães.
E se fosse procurar psicanalista, pai de santo, padre, teria que fazer isso carregando dentro de si mais do que ela mesma. Era um peso que correspondia a um boi, daqueles gordos, cheios de bravura. E se achava promíscua – seria essa a palavra? Não sei –, se achava uma indecente por ter na mente, e no armário, mais de duas opções. Seria como escolher entre várias peças de roupas uma que ela adorava, para ir a uma festa, mas não se sabia a hora em que o trem passaria para levá-la ao destino. E se não desse tempo de escolher? O preto básico. O marrom elegante. O azul calmaria. O vermelho paixão. O rosa bebê. O verde desconcertante. Um arco-íris nas gavetas de casa, da alma. Do jeito que tem o coração bobo, que crê com facilidade em promessas e flertes, correria o risco de querer o pão ou a roupa que fosse de qualquer um dos outros 7 bilhões de convidados da festa que agora se veste para ir.
_ Dois reais de pão, por favor. – berrou a senhora em sua frente. Agora não restava muito tempo. Teria que pensar com pressa, pois seria o próximo a escolher o que levar pra casa, pra dentro do lar.
_ A senhora está bem? Deseja alguma coisa? – a atendente perguntou preocupada, ou só por educação.
_Sim – ela mentiu, mas a convenceu com seu sorriso abre alas – quero o tradicional. O de todo dia.
Os pães da prateleira choraram. Todos. Sem exceção. Os novos sabores, os velhos – que ousou provar e gostar – os de sabores duvidosos, e os que ela jamais experimentaria. As pequenas massas a amostra sabiam que ela era uma boa degustadora, daquelas que colocam a obra-prima do padeiro na palma da mão, com cuidado para não amassá-la, mede o centro – milimetricamente – e corta com cuidado, para não fazer muito sujeira, e por último, passava a manteiga com cuidado – não se pode bagunçar o que há dentro das coisas, das pessoas, dos pães. Numa mordida certeira deleitava-se com a mistura de trigo. Esse era o forte dela.
Os pães, as pessoas, as cores, caiam bem nela. “A danada era sortuda em assuntos do coração”, diria os menos íntimos. ”Sortuda uma ova! Era uma atrai ilusões amorosas”, diria os mais próximos. Seja lá o que escolhesse, ela só queria matar a fome. E isso não era pecado.
Audevan Caiçara
Laranjeiras, 12 de julho de 2012.