quarta-feira, 6 de novembro de 2013

1.2.3



Oh it tears me up
I try to hold on but it hurts too much
I try to forgive but it's not enough
To make it all okay
Broken Strings - James Morrison

1. A dor

E se a dor servir de estímulo? Então põe ela pra dentro de casa, dá-lhe bebida forte e te coloca a escrever, Mané. 

Ela veio. Veio num domingo abafado. Não me telefonou antes, nem quis saber se eu queria receber visitas – porque eu não queria. Quando bateu à porta, pensei ainda em não abrir. Expiei pela brecha. Talvez se eu estivesse com as luzes apagadas, com menos sorrisos e certezas, ela não teria vindo. Teria ficado lá, nem tão distante quando fora um dia, nem tão próximo quanto estava agora. Educadamente, a recebi de braços abertos. Sentou no meu sofá, usou meus pertences, bebeu no meu copo e depois partiu. Deixou marcas em cada cantinho da casa. Polegadas, pegadas, palavras. Entre a chegada e a saída aconteceu-lhes alguma coisa.

2. A ocasião

É preciso que você segure a ponta do lado daí, pois se não segurar, consequentemente, ficaremos ilhados em porções pequenas de sonhos. Eu preciso dessa ponte. Precisamos dessa ponte e ela só pode existir se nós dois quisermos. 

3. A causa

Eu sou uma ponte
Eu sou uma ilha
Eu sou um país pequeno africano
Eu não sou nada disso

Eu sou
Eu fui
Eu serei
Eu não sei

Sem a verdade nós somos...
Animais são irracionais.
Você consegue agir sem pensar?

Audevan Caiçara
Laranjeiras, 17 de março de 2013

sábado, 26 de outubro de 2013

Para não morrer afogado




Eu estou no mar. A água está gelada demais e então começo a ter pequenos delírios. Meu corpo se encontra com marcas das quais nunca me livrarei. Sei disso, mesmo aqui, no relento. É noite e o mar está revolto. Queria a calmaria que a tempestade prometeu. Meus pés tocam o lodo. Meu organismo começa a agir como se fosse parte da sujeira. Encontram semelhanças entre si. Avisto um barquinho, frágil e branco. Ou melhor, acho que foi ele, o barco, quem me viu. Acho também que viu apenas um pedacinho de mim, aquele que está por fora d'água, e que é bonito, sem contaminações. O barquinho parece estar contente com as águas que o cercam. Parecemos extremos, mas não estranhos, temos nossas combinações. Ah, como dividimos sonhos!
O barco aproxima-se. Joga uma âncora. Quanta alegria! Estou com os braços quase que paralisados. Retiro-os lentamente do ambiente aquático e quando vou me agarrar ao objeto lançado ele, o barco, retrai. Toma de volta para si a boia. 

Recua e me olha.
Se aproxima então.
Recua e me olha.
Se aproxima então
Recua e me olha.
Se aproxima então.

Me debato com dificuldades, por causa do lodo, do frio, do medo, do passado. Me debato, suplicando por socorro. Ele não parece entender. Ele parece entender mas, não se interessa. Ele parece desinteressado e desentendido. Logo agora que eu estava me pondo nas mãos do que navega. Não era isso, era assim: logo agora que eu estava pondo as mãos no que navega. Ou vice versa. Eu ainda me debato, daquele jeito desengonçado. Fico a ver o barco. Fico a ver navios. Eu estou no mar cheio de lodo e você não me salva.

Audevan Caiçara
Feira de Santana, 16 de junho de 2013.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Mãe-Morta

Poesia vencedora do 5º Prêmio de Poesia Popular João Sapateiro. Laranjeiras, Sergipe.


O céu foi rasgado na noite passada
O bico do pássaro foi quem anunciou
Ela está parindo sem dar à luz a nenhum menino
Sem feto, sem afeto, só dor

As mãos no ventre, na tentativa de voltar no tempo
De mantê-lo lá dentro, escondido
Para que não lhe arranquem as vísceras 
Para que não lhe tirem o filho, o pai, o marido

Fez do fundo túmulo, berço 
E da corrente fez um terço
Mas da vida já não sabe o que faz
Sem o menino de jeito fugaz

Com o peito, deu leite na infância
Agora amamenta com lágrimas a terra santa
Onde o filho dorme na calmaria do silêncio
E o vermelho do barro é a cor da sua manta

Mulher forte e decidida
Morreria para dar vida ao que não mais vive
A mãe que continua mãe
Do filho que já não existe

Com um tiro no peito, lhe tiraram o chão.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O pão da padaria



Mas ele se sente só
Quando a noite cai
E quando vem o vazio
Ele nem sabe pra onde vai
Ele se sente só - Megh stock



Ela estava confusa. Coisa rara entre as organizações virginianas. As lágrimas nos olhos não eram de tristeza, eram de angústia. Sabe quando a mãe nos pede pra comprar pão e chegando à padaria você não sabe qual o tipo de pão levar? Pois é. Ela estava com medo de escolher o pão errado – porque os dois eram bons pães. E se a mãe brigasse com ela? E se as pessoas não gostassem da nova massa, do novo recheio?
Tinha acordado também com o coração encharcado. “Não me espremam que eu transbordo”. E tomou a providência dela mesma espreitar-se, espremer-se em dúvidas, angústias, escolhas, entre pães.
E se fosse procurar psicanalista, pai de santo, padre, teria que fazer isso carregando dentro de si mais do que ela mesma. Era um peso que correspondia a um boi, daqueles gordos, cheios de bravura. E se achava promíscua – seria essa a palavra? Não sei –, se achava uma indecente por ter na mente, e no armário, mais de duas opções. Seria como escolher entre várias peças de roupas uma que ela adorava, para ir a uma festa, mas não se sabia a hora em que o trem passaria para levá-la ao destino. E se não desse tempo de escolher? O preto básico. O marrom elegante. O azul calmaria. O vermelho paixão. O rosa bebê. O verde desconcertante. Um arco-íris nas gavetas de casa, da alma. Do jeito que tem o coração bobo, que crê com facilidade em promessas e flertes, correria o risco de querer o pão ou a roupa que fosse de qualquer um dos outros 7 bilhões de convidados da festa que agora se veste para ir.
_ Dois reais de pão, por favor. – berrou a senhora em sua frente. Agora não restava muito tempo. Teria que pensar com pressa, pois seria o próximo a escolher o que levar pra casa, pra dentro do lar.
_ A senhora está bem? Deseja alguma coisa? – a atendente perguntou preocupada, ou só por educação.
_Sim – ela mentiu, mas a convenceu com seu sorriso abre alas – quero o tradicional. O de todo dia.
Os pães da prateleira choraram. Todos. Sem exceção. Os novos sabores, os velhos – que ousou provar e gostar – os de sabores duvidosos, e os que ela jamais experimentaria. As pequenas massas a amostra sabiam que ela era uma boa degustadora, daquelas que colocam a obra-prima do padeiro na palma da mão, com cuidado para não amassá-la, mede o centro – milimetricamente – e corta com cuidado, para não fazer muito sujeira, e por último, passava a manteiga com cuidado – não se pode bagunçar o que há dentro das coisas, das pessoas, dos pães. Numa mordida certeira deleitava-se com a mistura de trigo. Esse era o forte dela.
Os pães, as pessoas, as cores, caiam bem nela. “A danada era sortuda em assuntos do coração”, diria os menos íntimos. ”Sortuda uma ova! Era uma atrai ilusões amorosas”, diria os mais próximos. Seja lá o que escolhesse, ela só queria matar a fome. E isso não era pecado.






Audevan Caiçara
Laranjeiras, 12 de julho de 2012.