Eu estou no mar. A água está gelada demais e então começo a ter pequenos delírios. Meu corpo se encontra com marcas das quais nunca me livrarei. Sei disso, mesmo aqui, no relento. É noite e o mar está revolto. Queria a calmaria que a tempestade prometeu. Meus pés tocam o lodo. Meu organismo começa a agir como se fosse parte da sujeira. Encontram semelhanças entre si. Avisto um barquinho, frágil e branco. Ou melhor, acho que foi ele, o barco, quem me viu. Acho também que viu apenas um pedacinho de mim, aquele que está por fora d'água, e que é bonito, sem contaminações. O barquinho parece estar contente com as águas que o cercam. Parecemos extremos, mas não estranhos, temos nossas combinações. Ah, como dividimos sonhos!
O barco aproxima-se. Joga uma âncora. Quanta alegria! Estou com os braços quase que paralisados. Retiro-os lentamente do ambiente aquático e quando vou me agarrar ao objeto lançado ele, o barco, retrai. Toma de volta para si a boia.
Recua e me olha.
Se aproxima então.
Recua e me olha.
Se aproxima então
Recua e me olha.
Se aproxima então.
Me debato com dificuldades, por causa do lodo, do frio, do medo, do passado. Me debato, suplicando por socorro. Ele não parece entender. Ele parece entender mas, não se interessa. Ele parece desinteressado e desentendido. Logo agora que eu estava me pondo nas mãos do que navega. Não era isso, era assim: logo agora que eu estava pondo as mãos no que navega. Ou vice versa. Eu ainda me debato, daquele jeito desengonçado. Fico a ver o barco. Fico a ver navios. Eu estou no mar cheio de lodo e você não me salva.
Audevan Caiçara
Feira de Santana, 16 de junho de 2013.

Um comentário:
Lindah... Bem assim!
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