sábado, 22 de setembro de 2012

SobrevIVE



Ive. Isso mesmo. Ive e ponto. Conheci o som dela há dois anos, tocando na trilha sonora de uma novela. Não fiquei por aí. Nunca fico consumindo apenas o que a TV e o rádio me dão. Gosto de ir além, fuçar coisas novas (passo horas na frente do monitor, em sites de músicas "alternativas"). Esperei ansiosamente o CD "Sem Moldura", que enfim chegou. E trouxe mais que música! Tem boas vibrações, esperança e prova da sobrevivência da música de qualidade. Cantando o amor de forma sincera e singela. Sem gritos, consegue fazer um barulho e uma bagunça gostosa em que a escuta. Imagino o quão difícil foi para este trabalho ser parido por você e por Marco Brito. Vida longa!


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Dor

_Há dor deste lado.
_No de cá também.
_Mas aqui dói mais.
_Em você. A minha dói muito também.
_Não se compara com o tamanho da minha.
_As dores são incomparáveis. O que dói em mim poderá não doer em você.
_Queria diminuir minha dor.
_Sorria, o sorriso engana a dor, tange pra longe.
_Não consigo, o peso das lágrimas impede a leveza do meu riso.
_Aceite a dor e guarde-a pra depois. Ponha em algum lugar longe do peito.
_Nas pernas?
_No bolso.
_Perto das pernas.
_É.
_A dor diminui quando estou com você.
_Sempre que houver dor, me chame.
_Soma de dores não deveria aumentá-las?
_Deveria. É matemático, né? Soma sempre aumenta...
_Já são dez e quinze, estou atrasado. Preciso ir. Beijo. Tchau.
_Tchau. Te cuida. Qualquer dor, digo, qualquer coisa, me liga.

  E ele ficou ali parado enquanto a outra pessoa andava levemente e com face lisa -sem sorriso, sem dor, com nada. Queria sair daquele estado, onde uma nuvenzinha cinza pairava sobre seus cabelos.
  Por ali ficou durantes horas, na chuva. As dores dele e dos outros transbordavam pelo seu bolso.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um porto



Haverá um porto,
                 ponto de parada para essa solidão.
Haverá ainda um velho marinheiro com trapos brancos e cheirosos, que ensine-me a calmaria de estar
só,
em um barco regado a ventos, tempestades e imensidão.
Haverá por ser preciso. 
Limpo as nuvens, estendo a vela. Navego sem ninguém mais.
Não se pode desgostar da própria companhia. Não se pode.
Desconhecer o prazer de estar consigo mesmo, entre a própria pele e pelos, e ser feliz mesmo assim, é um risco imenso.
O que há dentro de si? Qual é a cor do meu sangue? Qual a forma do meu medo?
Dar-se ao outro, descrente do poder embutido nos ossos de si mesmo, é entregar os pontos sem saber se são muitos ou poucos. Entregar bilhete premiado da mega-sena. Ou nota de três reais.
Toque-se.
Sem pedir permissão, mexa nas próprias pernas.
Olhe-se no espelho, mais pra dentro dos olhos do que para o tom marrom das olheiras.
Elogie-se e compre chocolates para você.

Mas saiba abrir os braços para os outros. Dando sorriso sincero sem pedir em troca.
Agrupar as asas e voar em bando é gostoso demais para escolher bater asas sozinho, todos os dias. 
Conte para si mesmo os seus 
segredos, verdades e piadas. 
E só depois estará pronto para ouvir, aconselhar e rir dos
segredos, verdades e piadas alheias.
Haverá um momento em que badaladas de sino contaminaram o céu azul,
aí atracarei meu barquinho para mergulhar em mim.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Vendo amor

  A velhinha colocava a placa estacada na grama verde, nova, do parque central da cidade. Ela tinha os cabelos grisalhos, batons avermelhados nos lábios, anéis, colares, vestido florido. Se não fosse pelas marcas do tempo, seria uma garota sonhadora. Restou-lhe apenas rugas e sonhos nas mãos. Na placa, que era implacável em chamar atenção pelo tom avermelhado, combinando com o vermelho dos lábios, tinha escrito:

"VENDO AMOR
Preço: Abraços apertados, afagos nos cabelos, beijos quentes, 5 minutos de silêncio após o sexo, paciência, pouco orgulho, bom humor, SMS's no meio da noite, beijo em meio a uma discussão, toalhas no varal, creme dental com tampa, tampa do vaso sanitário abaixada, massagem, poucos erros ortográficos em cartas de amor, tolerar crise existencial, ouvir MPB, assistir filmes cult, peidos-arrotos-e-afins-em-particular, poucos palavrões, usar creme nos pés, não usar perfume cítrico, dizer 'eu te amo' e DEMONSTRAR O AMOR."

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Ponto final

Acostumar-se com a morte?
Não. Ainda não. Gente foi feita pra viver.
 E pra acabar.
Morrer é extremos de complexidade e normalidade.
A lei da vida é a lei da morte.
Que seja marcante a passagem por aqui.
Que seja tranquila a passagem pra lá. Lá onde nunca sabemos onde é, até ir.
Não acostumei.
Abro os braços e abraço a vida. A essa tenho tempo disponível.