_Há dor deste lado.
_No de cá também.
_Mas aqui dói mais.
_Em você. A minha dói muito também.
_Não se compara com o tamanho da minha.
_As dores são incomparáveis. O que dói em mim poderá não doer em você.
_Queria diminuir minha dor.
_Sorria, o sorriso engana a dor, tange pra longe.
_Não consigo, o peso das lágrimas impede a leveza do meu riso.
_Aceite a dor e guarde-a pra depois. Ponha em algum lugar longe do peito.
_Nas pernas?
_No bolso.
_Perto das pernas.
_É.
_A dor diminui quando estou com você.
_Sempre que houver dor, me chame.
_Soma de dores não deveria aumentá-las?
_Deveria. É matemático, né? Soma sempre aumenta...
_Já são dez e quinze, estou atrasado. Preciso ir. Beijo. Tchau.
_Tchau. Te cuida. Qualquer dor, digo, qualquer coisa, me liga.
E ele ficou ali parado enquanto a outra pessoa andava levemente e com face lisa -sem sorriso, sem dor, com nada. Queria sair daquele estado, onde uma nuvenzinha cinza pairava sobre seus cabelos.
Por ali ficou durantes horas, na chuva. As dores dele e dos outros transbordavam pelo seu bolso.
Um comentário:
Realmente existem dores que precisam ser postas no bolso...
E também na chuva é a melhor forma de pôr essa dor pra fora, pois ninguém nota que vc ta chorando....
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