quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Para uma amiga distante

Luzes te guiarão até em casa
E aquecerão teus ossos
E eu tentarei consertar você
Fix You - Coldplay
Não pensou duas vezes, na verdade não queria mais pensar.
Antes mesmo que a lágrima se jogasse para escorrer pela pele pálida, pôs sua cabeça no colo da sua amiga. André sabia que com ela tudo ficaria mais calmo, mais nítido, menos importante. Sofrer sozinho dói mais. E doeu. Latejava o peito, bem debaixo da camisa que ganhara daquela que agora lhe fazia inflamar em dores e lágrimas quentes. Dos olhos assustados saltavam pequenos fantasmas, bruxas más. A dor, que era só dele, particular, não precisava de remédios mais importantes do que as pernas, as mãos, o colo e o calor de Laisa. Ela, com cabelos até a cintura, que balançavam durante as tardes ventosas, estava ali, toda, inteira, para aquele que é, e será seu amigo também de todas as horas. O cabelo pós-lavado exalava o cheiro do xampu de morango e deslizava devagar entre as bochechas de André. Ele riu. Não de alegria, foi apenas por causa das cócegas causadas pelo vai e vem dos longos fios. O cheiro de morango agora se misturava ao de água e sal. A sala dele era o local. Sofá preto, tipo repartição pública.
_A ponta do seu nariz está fria. –disse Laisa.
_ Frio está meu coração. –Não bastava ser pessimista, ele tinha que ser dramático também.
_Um tempo. Tempo para resolver o ‘tempo’ pedido. Um cura o outro. Simples! Ela deve estar confusa, cara. Você mesmo já esteve confuso. Sofrer antecipadamente é arriscar entre sofrer em vão ou duplicadamente. –ela poderia fazer um TCC, mas preferiu apenas poucas palavras. Fechou os olhos para o espirro que vinha, e veio. Deixou o rosto do amigo chorão coberto de gotículas nojentas e virais. Entre risos e ‘desculpas’ passou a mão direita sobre o lado esquerdo do rosto de André.
_Não vá me passar sua gripe! –brincou.
_Não venha me passar sua dor! –retruncou.
_Vamos compartilhar? –André levantou a cabeça e fixando os olhos em Laisa teve uma ideia daquelas que só melhores amigos têm. –Me dê um pouco da sua enfermidade e eu te dou um pouco da minha.
Laisa pensou em resistir. Apenas pensou. Ela colocou a ponta da língua pra fora e deslizou-a no rosto de André, feito criança quando lambe a lágrima antes mesmo dela cair entre os lábios. E ele beijou delicadamente a ponta do nariz, agora molhada de secreção, de Laisa.
Riram. E não é que as dores quando compartilhadas se tornam menores? O que importava ali não era mais a dor. E com o peso menor atravessam noite à dentro falando mal e bem de todos que conheciam.


Audevan Caiçara
Entre Feira de Santana e Laranjeiras, 15 e 27 de julho de 2012