Luzes te
guiarão até em casa
E aquecerão
teus ossos
E eu tentarei
consertar você
Fix You -
Coldplay
Não pensou duas
vezes, na verdade não queria mais pensar.
Antes mesmo que
a lágrima se jogasse para escorrer pela pele pálida, pôs sua cabeça no colo da
sua amiga. André sabia que com ela tudo ficaria mais calmo, mais nítido, menos
importante. Sofrer sozinho dói mais. E doeu. Latejava o peito, bem debaixo da
camisa que ganhara daquela que agora lhe fazia inflamar em dores e lágrimas
quentes. Dos olhos assustados saltavam pequenos fantasmas, bruxas más. A dor,
que era só dele, particular, não precisava de remédios mais importantes do que
as pernas, as mãos, o colo e o calor de Laisa. Ela, com cabelos até a cintura,
que balançavam durante as tardes ventosas, estava ali, toda, inteira, para
aquele que é, e será seu amigo também de todas as horas. O cabelo pós-lavado
exalava o cheiro do xampu de morango e deslizava devagar entre as bochechas de
André. Ele riu. Não de alegria, foi apenas por causa das cócegas causadas pelo
vai e vem dos longos fios. O cheiro de morango agora se misturava ao de água e
sal. A sala dele era o local. Sofá preto, tipo repartição pública.
_A ponta do seu
nariz está fria. –disse Laisa.
_ Frio está meu
coração. –Não bastava ser pessimista, ele tinha que ser dramático também.
_Um tempo. Tempo
para resolver o ‘tempo’ pedido. Um cura o outro. Simples! Ela deve estar
confusa, cara. Você mesmo já esteve confuso. Sofrer antecipadamente é arriscar
entre sofrer em vão ou duplicadamente. –ela poderia fazer um TCC, mas preferiu
apenas poucas palavras. Fechou os olhos para o espirro que vinha, e veio.
Deixou o rosto do amigo chorão coberto de gotículas nojentas e virais. Entre
risos e ‘desculpas’ passou a mão direita sobre o lado esquerdo do rosto de
André.
_Não vá me
passar sua gripe! –brincou.
_Não venha me
passar sua dor! –retruncou.
_Vamos
compartilhar? –André levantou a cabeça e fixando os olhos em Laisa teve uma
ideia daquelas que só melhores amigos têm. –Me dê um pouco da sua enfermidade e
eu te dou um pouco da minha.
Laisa pensou em
resistir. Apenas pensou. Ela colocou a ponta da língua pra fora e deslizou-a no
rosto de André, feito criança quando lambe a lágrima antes mesmo dela cair
entre os lábios. E ele beijou delicadamente a ponta do nariz, agora molhada de
secreção, de Laisa.
Riram. E não é
que as dores quando compartilhadas se tornam menores? O que importava ali não
era mais a dor. E com o peso menor atravessam noite à dentro falando mal e bem
de todos que conheciam.
Audevan Caiçara
Entre Feira de Santana e Laranjeiras, 15 e
27 de julho de 2012
Um comentário:
*-*
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